quarta-feira, agosto 17

CUmplicidades II

O ritual. Não interessa se é de manhã cedo ao acordar, se após o café e o primeiro cigarro, se a seguir ao almoço, se breve a seguir ao jantar ou até mesmo momentos antes de ir para a cama. A revista, o Expresso, o livro, as páginas amarelas e até a literatura médica inclusa na embalagem do medicamento… tudo me serve.

Na solidão da casa de banho. É assim que gosto. Eu e Eu e aquele outro que depois se afoga… momentos meus… muitos meus.
Bem, de facto eu gostaria que assim fosse.
Por isso fecho sempre a porta da casa de banho. Lá fechada ela fica.
Não tarda muito abre-se.
Ou é o cão que vem cheirar o porquê da demora ou és tu com a pressa dos dentinhos por lavar. Pretextos!
Sei que me observas pelo canto do olho através do espelho. No primeiro embate protesto!
- Já me parecia tarde…. – maldigo a sorte, suspirando contraio-me.
- Não consegues é? – dizes-me no meio de um sorriso a tramar-me os argumentos.

Protesto de novo. Ameaço. Ris.
- Mas nem cheira mal…
- E por não cheirar mal invades a minha privacidade? É isso?

Acabas por te contorcer de riso a espumar da boca, incontrolada a babar pasta de dentes como se possuída.

O Expresso, ainda é um jornal poderoso e grande, suficientemente grande para me tapar a cabeça. Não quero ver as macacadas que fazes a provocar-me.
Contenho o riso e aspiro a tinta do jornal.
- Pára lá com isso e pisga-te daqui para fora!
- Ta ta na naaaan tan ta ta – cantas a bambolear-te.
- Não acho graça nenhuma! É uma falta de respeito…
- Por ti ou por ele???
- Olha… tas aqui tas ali…

Não acredito! Sentas-te na bancada. Cruzas as pernas e aguardas.
- Que foi agora? Uma pessoa já não pode esperar na casa de banho?
- Poder podes… mas eu tou aqui… não sei se reparaste nisso e tou deveras numa missão, diria até que impossível! Sinto que o que era para sair… já deu a volta e subiu! Achas bem?

A tua risada contagia-me. E eu que não posso levantar-me….desespero.
Desespero por todos os motivos. Não te alcanço, não acabo a missão, não termino a leitura…
Sei que amanhã farás o mesmo e isso deixa-me feliz.
Pelo sim pelo não…vou meter uma fechadura na porta do wc… vamos ver quem vai desesperar. Apostamos?

…/…

2 comentários:

zibliana disse...

Vão desesperar os teus leitores, se deixam de ter histórias destas por causa de uma fechadura...
Mas antes isso que desesperares tu por não cumprir as tuas missões nos prazos razoáveis, acho eu...

Curiosa narrativa, apreciei a ternura escondida por trás do tom brincalhão, a constatação da erosão do pudor que a intimidade entre pessoas produz... ou engano-me na apreciação?

Pseudo disse...

E quem é que a fecha?